Por que mudanças sempre são dolorosas?
Foi isso que me perguntei, dia desses, enquanto refletia sobre trilhar novos caminhos, fazer coisas diferentes, abandonar certos costumes e hábitos e, até, quem sabe, fazer coisas que eu odiava.
Mas nós odiamos mudar, sair da nossa zona de conforto. Ainda mais quando somos do tipo que vive de vender almoço para comprar janta. É horripilante.
Assim, deixei essa ideia na gaveta. Em algum momento no futuro, eu voltaria nela.
Mas eu não contava com a vida sendo a vida.
Engolido pela máquina, de novo
Já comentei, antigamente, sobre um problema que tenho na coluna e falei da saga que foi entrar numa máquina de ressonância magnética, mas dessa vez precisei encarar esse "monstro" de novo, pois agora enfrento problemas na cervical.Mas o que essa maldita máquina dos infernos não esperava é que eu estava preparado, pois algumas horas antes eu havia treinado técnicas de respiração para controlar ansiedade e lidar com crises de pânico!
Assim, quando o operador colocou aquela máscara de plástico e a máquina me engoliu, logo fechei os olhos, controlei a vontade de chorar e comecei a respirar.
No começo foi tranquilo, até dei um sorriso todo orgulhoso de mim mesmo por estar suportando tudo aquilo (embora eu não arriscasse abrir os olhos), mas o som da máquina começou a me perturbar e eu fui perdendo a concentração.
Comecei a mandar minha mente para lugares distantes, pensar que dali a poucas horas eu estaria em casa rindo de tudo, a mesma técnica que pensei da última vez e tal. Mas logo comecei a sentir dificuldade para respirar, comecei a pensar em várias piadas imbecis que iam sendo esquecidas a cada puxada de ar minha. Então sinto que não sei mais como respirar e meu pulmão parece tufar mais que o normal, me sinto agoniado naquela merda de máquina e penso que vou apertar o botão para parar o processo.
Mas, antes que isso acontecesse, a máquina me cospe para fora daquela garganta fria e barulhenta. O operador perguntou se eu estava bem, e eu fiz alguma piada que ele ignorou. Cambaleei até o quarto para pegar meus pertences e, ao sair, noto alguns olhares curiosos. Olho para baixo e percebo que estou caminhando torto.
Na rua, volto a respirar normalmente e vou comer uma bela coxinha acompanhada de um suco de maracujá. Enquanto sinto o sabor de uma massa suspeita com um frango salgado e um suco bem doce, penso, mais uma vez, em como lidei bem com essa máquina. Ah, se eu soubesse que, por três dias, eu teria de lidar com crises de pânico, ansiedade e diarreia.
Em uma bela noite, tudo mudou
Você já deve ter sentido isso, né?É como se alguém te suspendesse sem prévio aviso. O chão, então, parece sumir dos seus pés, e aí você sente eles novamente, mas então suas pernas parecem fracas e você quer cair. Seus ombros ficam tensos, seu peito aperta, enquanto você sente um frio estranho por dentro e logo quer chorar.
Já sentiu?
Foi isso que eu senti quando perdi todos os meus trabalhos.
Como isso aconteceu?
Não sei. Só sei que estava limpando o cache do navegador pelo terminal do Linux quando tudo foi pro saco. Depois, o meu amigo Pensador Louco me ajudou a manter a calma e a tentar recuperar os arquivos, mas, no processo, eu vacilei e meu HD foi para o saco, fazendo com que eu perdesse tudo de vez.
Assim, os trabalhos em andamento, originais do Atura Camuirá, fanarts, rascunhos, freelas feitos, os que estavam quase prontos e portfólio, tudo foi embora.
Foi assim que a vida me tirou da minha zona de conforto em uma só semana. Primeiro, fazendo eu enfrentar a claustrofobia e crises de pânico; depois, fazendo com que eu recomece com os trabalhos.
Não vou mentir: neste momento eu estava muito perto de abandonar de vez o "Evaristo Ramos" e a vida de artista freelancer e me entregar de vez à vida de derrotas que tenho fora daqui e viver apenas com o nome que está em meu CPF.
Mas não poderia. As responsabilidades e pessoas que dependem de mim não gostariam nada disso.
E, por sorte e benção, eu tenho grandes amigos. Se tem uma coisa que a vida foi generosa comigo, foi nessa de sempre ter sorte em conhecer gente boa.
Meus amigos me apoiaram e me tranquilizaram, e um amigo meu aqui da cidade, o meu mais antigo amigo da vida, logo me arrumou um HD e fez o favor de instalar tudo para mim. Foi doloroso iniciar o PC e ter de reinstalar tudo de novo, configurar mais uma vez e ver que a pasta não tem mais os meus trabalhos de anos e anos.
Entretanto, não posso negar que uma parte de mim, uma que eu nem sabia que ainda existia, fez com que eu sorrisse e ficasse empolgado com essa espécie de recomeço. Pode não parecer muita coisa para você, mas, para alguém que estava há anos em uma rotina robótica, esses dias, por mais malucos e dolorosos que tenham sido, deram uma chacoalhada a ponto dessa parte quase esquecida de mim sussurrar: "Ei, porra, vamo meter ficha!"
Em breve, eu retorno para falar sobre Atura Camuirá. No momento, preciso organizar os freelas que terei de recomeçar, e tudo isso enquanto lido com idas e vindas ao médico. Obrigado por acompanhar, por ajudar e por ter paciência com esse imbecil aqui.
E se quiser me ajudar, basta compartilhar meus quadrinhos e, se quiser e poder, fazer uma doação pix para davidevaristo20@gmail.com e obrigado desde já!
Inté!

